Portugal, uma nação de emigração

Suíça é o primeiro país de destino

Jonas Komposch

Mais de um quarto de milhão de portugueses e portuguesas vive na Suíça. Quem são estes portugueses, atualmente o terceiro maior grupo de estrangeiros na Suíça?

(Keystone)

Quando na Suíça as pessoas à volta de uma mesa de café falam de “estrangeiros”, raramente mencionam os portugueses. Isto apesar de, com 260 000 pessoas, serem atualmente o terceiro maior grupo de estrangeiros no país, a seguir aos italianos e aos alemães, mas à frente dos franceses e dos kosovares. Até o Serviço Federal de Migração admitiu, em 2009, que a diáspora portuguesa era “pouco conhecida”. Por isso, encomendou um estudo, cujos resultados surpreenderam.

No início, apenas opositores ao regime

A imigração portuguesa na Suíça é um fenómeno relativamente recente. Os primeiros migrantes chegaram por volta de 1960, sobretudo para Genebra. Tratava-se acima de tudo de intelectuais e opositores ao regime perseguidos pela ditadura. Na altura, a Suíça quase não permitia a entrada de trabalhadores migrantes. A Confederação considerava que o “modo de vida português” contrastava demasiado com os “costumes suíços”. Só no final dos anos 1970 é que esta exclusão terminou. Em 1980, apenas 10 000 portugueses viviam na Suíça. Em 2010, esse número era já vinte vezes superior. Desde 2017 que a comunidade tem vindo a diminuir ligeiramente. Isto deve-se sobretudo ao facto de a primeira geração ter atingido a idade da reforma e de a maioria estar a regressar ao país. No entanto, a Suíça continua a ser o principal país de destino. Embora haja três vezes mais portugueses a viver em França, a sua percentagem na população total é mais elevada na Suíça (cerca de 3%). Nenhum outro país do mundo envia tanto dinheiro para Portugal. Em 2023, os portugueses aqui residentes enviaram 1,08 mil milhões de euros para o seu país de origem, um montante sem precedentes. E todos os anos chegam à Suíça cerca de 10 000 novas pessoas em busca de oportunidades. Apenas a França e a Espanha têm taxas tão elevadas de imigração portuguesa.

Este fluxo não deverá abrandar tão cedo. De acordo com os últimos dados do Observatório da Emigração de Lisboa, trinta por cento das pessoas com idades compreendidas entre os 15 e os 39 anos continuam a querer emigrar. Portugal é já o país com a taxa de emigração mais elevada da Europa e uma das mais elevadas do mundo. Cerca de 2,3 milhões de portugueses vivem no estrangeiro. Destes, 70% têm menos de 39 anos.

Um em cada quatro homens trabalha na construção civil

Também na Suíça, a idade média dos portugueses é inferior à da população em geral, pelo que a percentagem de empregados é mais elevada. Mas a taxa de desemprego é também mais elevada, o que está sobretudo relacionado com a barreira linguística e o nível de qualificações: em 2009, o estudo federal acima referido concluia que os pais portugueses tinham “um nível de instrução muito baixo”, em comparação com outros grupos de migrantes. A culpa é da ditadura salazarista. Esta só introduziu a escolaridade obrigatória em 1960. Só com a Revolução dos Cravos, em 1974, é que o sistema de ensino foi modernizado.

Na Suíça, os homens portugueses encontram trabalho sobretudo na construção civil (quase um em cada quatro!), na indústria e na agricultura. As mulheres trabalham principalmente na hotelaria e restauração, nas limpezas ou nas vendas. Em geral, nestes ramos, os portugueses executam trabalhos que não requerem qualificações. Por conseguinte, o seu rendimento médio é significativamente inferior ao dos suíços e de outros estrangeiros da UE. Além disso, devido à elevada taxa no setor da construção civil, os portugueses têm duas vezes mais probabilidades de sofrer acidentes de trabalho do que os suíços.

Qualificações mais elevadas

A recente geração de migrantes possui qualificações por vezes bastante mais elevadas. Este facto também é sentido pelo sindicato Unia: os cerca de 26.000 sócios portugueses são o maior grupo nacional depois dos suíços. Entre os trabalhadores da construção civil que estão organizados, os portugueses são mesmo o grupo mais numeroso, com 33%. Mas este valor está a mudar gradualmente. Nicole Niedermüller, do Unia Zurique-Schaffhausen, explica: “Os jovens que hoje se juntam a nós no setor da construção civil tendem a vir do leste e sudeste da Europa. Os jovens portugueses procuram cada vez mais outros ramos profissionais”.

Quer se trate de jovens ou de gerações mais velhas – todos parecem partilhar uma coisa: uma forte ligação ao seu país natal. Susana Pereira é jurista no Unia e vice-presidente do Centro Lusitano de Zurique, uma das maiores associações portuguesas. Ela afirma: “Os meus compatriotas são muito ligados a Portugal. Isso vê-se nas muitas associações e restaurantes, que são muito bem frequentados.“ Muitos jovens dançam em ranchos folclóricos e em muitas casas, a televisão portuguesa está sempre ligada. No entanto, Pereira também tem uma visão crítica desta última: „Vê-se constantemente como o país está mal.“ Isto ajudou o partido de direita Chega – e deixou a sua marca na comunidade (ver caixa).

Choque do Chega nas eleições: Recorde de votação da direita na Suíça

Nos últimos oito anos, o Partido Socialista (PS) governou Portugal, em parte com o apoio dos partidos de extrema-esquerda. Essa era chegou ao fim. Nas eleições antecipadas de 10 de março, a AD, Aliança Democrática da direita conservadora, venceu o PS por pouco. Mas o verdadeiro vencedor foi o autoproclamado „partido antissistema” Chega. Conseguiu quadruplicar o número de lugares no Parlamento e é atualmente a terceira força política, com 18% do eleitorado. O líder do Chega é André Ventura, um antigo comentador de futebol muito popular. Antes de fundar o seu próprio partido em 2019, fez política no meio conservador. Agora, toca a velha música da extrema-direita: quer proibir o aborto e a eutanásia, mas castrar os pedófilos. Quer abolir os impostos, mas reforçar o “sentimento monárquico popular”. E, de um modo geral, quer “limpar” o país de migrantes e refugiados, “marxistas culturais” e feministas, ciganos e “elites corruptas”.

Foi entre os jovens e na Suíça que Ventura marcou mais pontos! Na Suíça, 33% dos eleitores votou no Chega, o que é de longe o melhor resultado do partido a nível mundial. Só no Luxemburgo é que a ultradireita também se tornou a força mais forte, mas aí obteve “apenas” 19%. Espantoso: há apenas dois anos, o PS foi o vencedor incontestado das eleições na Suíça e obteve o dobro dos votos do partido de Ventura.

Mesmo assim, se analisarmos bem, o triunfo do Chega na Suíça é um pouco relativo. Apenas um em cada três eleitores foi às urnas. Além disso, um terço dos votos foi anulado devido a um registo eleitoral incorreto. No final, apenas uma minoria de 16.000 dos 260.000 portugueses na Suíça votou na extrema-direita. (jok)


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